quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Au revoir, mon ami.


De algum lugar escondido em Paris, onde disputava as migalhas do alimento que conseguia chegar até ele, furando o forte bloqueio da loucura nazista, o pequeno Joseph chegou ao Rio de Janeiro. Foram vários momentos até isso acontecer, é verdade, mas a vida dele começa mesmo nas areias do Rio, foi ali que aquele francesinho de verdade nasceu e desabrochou.

As tardes com ele no calçadão da Atlântica eram sempre um agradável revival a um Rio de outrora, quando ele reinou com seus longos cabelos loiros e dando pinta nos seus carros. Ver as meninas caminhando sempre foi um deleite para ele, e poucas vezes vi alguém conseguir descrevê-las com elegância e total falta de pudor ao mesmo tempo. Aquilo era uma arte, e me alegrava dele dividir suas histórias comigo, me contar do porteiro que nadava com ele e os amigos, do dia em que enfrentou onze oponentes na companhia de apenas um amigo (não pescava, mas tinha lá seus momentos de papo de pescador...rsrsrs), dos bailes de carnaval...

Me alegrei quando ele decidiu deixar o cabelo crescer novamente, aquele estilo conde francês combinava com ele e com Copacabana, aquela a quem ele chamava de sua cachaça. Cada esquina daquele bairro ele conhecia, cada casarão que caiu para nascer um espigão, cada história de herança disputada, mergulhos e nados no mar, caldos tomados, ressacas gigantes, o trotoir da Atlântica, o encontro com os amigos da juventude, tudo isso sempre povoou a vida dele, esse que era um artista do molde e do acabamento. Ele não só amava Copacabana, ele ERA a própria Copacabana e os finos fios de cabelos brancos pareciam feitos daqueles grãos de areia, tamanha a alegria com que de assanhavam ao sentir o vento vindo de lá.

Ele não era de quebrar promessas, mas confesso que tive a alegria de testemunhar quando ele quebrou aquela em que prometeu nunca mais passar o reveillon nas areias de Copa, mas o fez por um bom motivo: apresentar, alegre e todo pimpão, aquela festa linda aos seus sobrinhos netos, debutantes que eram naquela festança carioca. Celebramos juntos o ano, festejamos a vida e, acima de tudo, a união e o presente de estarmos juntos mais uma vez, e fica na vida e na memória dos pequenos João e Antônio essa honra de iniciar o ano nas areias do reinado do francês, na companhia do próprio.

Agora, assim como todo grande homem, , Joseph - que a essa altura já tinha se abrasileirado em Jorge - tinha sua grande mulher, sua companheira de jornada (e bota jornada nisso), a "best one", já que o moço gostava do esporte da conquista. Sem ela, sem sua Suely, ele nunca teria sido ele e a vida teria sido cinza, sem as cores da "tia maluca" que mostrou com dignidade ímpar o sentido da palavra com-pa-nhei-ra.

Jorge foi meu compadre, minha última tentativa de acerto nesse quesito, e que bom que nesse eu acertei, porque a vida me deu a alegria de ver como amava meus filhos, os três, independente de qual era o seu afilhado. Nunca lhe disse, mas ele era tão grande que ocupava o vácuo deixado pelos padrinhos dos outros dois. Talvez sem saber, Jorge foi um dos grandes e verdadeiros amigos que tive, e com seu olhar às vezes sombrio demais sobre o amanhã, me ensinou muito sobre o quanto as pessoas não sabem o que significa a palavra amizade. Me estendeu a mão sem fazer peguntas nem juízo, com a dignidade de um rei, isso quando "amigos" rotos nunca tiveram a dignidade de me fazer um 21 e sucumbiam às conversas cretinas de mesas de bar.

Quando precisei encontrar lugar de morada no seu reino, Jorge me colocou a bordo de sua poderosa Ipanema ano 900 e bolinha e no sábado de sol, ao invés de descansar da labuta puxada da semana, rodou diversas vezes seu principado à beira mar para buscar lugar onde me acomodar, desvendando lugares, contando histórias, compartilhando memórias das esquinas, contando o que as vozes que não mais existiam disseram nos anos de outrora. Me abriu sua casa, me estendeu sua mão, me tratou como um amigo.

Jorge foi o mais cavalheiro dos homens que conheci. Um grande amigo que tive e que acaba de nos deixar, levado pela doença que mais temeu, contra a que mais lutou e que lhe separou cedo demais daqueles que mais amou. Agora é ela que o leva de volta até eles, nos deixando aqui na ausência de sua presença, das boas conversas, das piadas de francês. Sentei aqui para escrever essas palavras como forma de homenagem, por menor que seja. Guardo comigo a alegria dos inúmeros almoços desfrutados juntos em terras do seu reinado, muitos deles na companhia de João e Antônio, que tanto lhe encheram de alegria e o faziam lembrar da bela família que sempre teve ao seu lado.

Comigo fica a risada do "tio maluco", os aniversários passados juntos, aquele feijão que o fazia revirar os olhos, o cafezinho sempre na hora certa, as ligações me perguntando como eu estava, as conversas de "pai" preocupado, a esperança em mim, a amizade verdadeira, a elegância refinada, o humor presente, a certeza de que a vida é feita de conquistas sim, mas também de muitos momentos simples, dignos e cheios da beleza que sempre embalaram as tardes de nossos encontros e que muitos não conseguem ver, nem no momento da passagem.

Joseph Tuszinsky segue comigo, como parte do homem que sou, e parte de mim segue com ele esta noite.

Descanse em paz, irmão, e até nosso próximo encontro.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Veredas da Educação

Como chuvisco salpicado no teto do mundo, as estrelas me receberam sob o céu do Piauí. No interior do sertão mais profundo mora um Brasil de beleza sem igual, sofisticadamente simples e verdadeira, como a solidariedade que encontrei fazendo morada no coração e na vida de bravos cidadãos que habitam aquela região rural da caatinga nordestina.


Capitão Gervásio de Oliveira é o nome do município. Procure no mapa e encontre a cidade debaixo das estrelas e do sol escaldante. Procure no seu mapa pessoal e me ajude a responder a questão que me apanhou, assim como os inúmeros pés de vento encontrados nos mais de 300km percorridos a partir da BR 407, saindo de Petrolina (PE), a  tão festejada "califórnia brasileira". Afinal de contas, a solidariedade nasce mais fácil nas pequenas localidades do que nas grandes cidades? Se nasce, qual o motivo disso?

"As pessoas se conhecem", diria um mais direto. "Existe mais tempo disponível", falaria aquele genérico do coelho de Alice. "É menor", cogitaria um dado ao minimalismo. Fiquei pensando em várias possibilidades e essas breves e ilusórias respostas que listei podem apresentar até alguma lógica, mas não me parecem corretas, porque o fato das pessoas se conhecerem não parece ser o motivo único do nascimento de uma atitude solidária, afinal de contas, conhecemos inúmeras pessoas no decorrer de nosso dia a dia e nem sempre alguma delas nos estimula preocupação. Muitas sequer recebem um desejo de bom dia quando cruzam o caminho de alguns.

Pensei então no fator tempo, este elemento que a tal modernidade parece mais nos ter tirado do que acrescentado, e me parece que acabamos debitando na conta dele, o tempo, muita coisa além do que deveríamos, e pude ver isso em Capitão Gervásio acompanhando um grupo de voluntários de uma empresa de mineração. O tempo ali começa às 06h da manhã e rende bastante, inclusive o tempo da "cabeça quente", porque quem está assim é orientado a ir ao viveiro de plantas literalmente encher o saco que serão utilizados para receber as mudas que nascerão no berçário cuidadosamente montado por aquelas pessoas. Mudas que serão plantadas nas escolas, nas ruas e nas residências dos moradores de lá.

O quesito tamanho parece perder sua razão quando conhecemos diversas ações que foram além mesmo de suas fronteiras para causar diferença na vida de tantas pessoas, e isso se junta à questão de fartura também, porque, por incrível que possa parecer a alguns, do município de Capitão Gervásio de Oliveira, uma região onde a seca reina durante boa parte do ano, saíram 3 toneladas de alimentos doados para as vítimas de enchentes que ocorreram no Maranhão. De dentro daquelas taperas muitas mãos se mostraram mais longas para ajudar o outro do que muitos bairros das grandes metrópoles.

O que vi em Capitão Gervário de Oliveira foi um grupo pequeno de voluntários mobilizando uma cidade inteira, uma comunidade escolar (e aí podem incluir todo mundo mesmo: pais, vizinhos, professores, moradores da cidade, gestores da educação, alunos...) e, sem esperar grandes movimentos além do que eles conseguiram produzir, eliminaram uma das maiores doenças que atinge a educação brasileira, que é o sistema de multisseriado, uma sala de aula onde crianças e jovens de diversas idades estudam juntas temas e programas que deveriam ser ministrados de forma separada. 

Pois foi na solidariedade, no braço, na esperança, no uso do tempo dos finais de semana, na certeza de que isso era importante para todos, que eles levantaram mais 04 salas de aula e aquela escola foi a que mais se destacou no IDEB dentro daquela região. A Secretária de Educação foi a primeira a dizer que isso não era suficiente e que há muito o que fazer ainda, e reconhece que sem a articulação dos voluntários, isso nunca teria sido possível.

Hoje o ônibus escolar atravessa a caatinga para buscar os alunos para a escola, que agora sonham até em ser astronautas, depois dos encontros promovidos pelos voluntários no "Uma história para contar", onde todos os profissionais que visitam a sua unidade de trabalho são convidados a contar uma história (qualquer uma) para os alunos do Núcleo Escolar Renascer Pedro Rodrigues. Devem sair de lá agradecidos por alguém encontrar tempo para conseguirem sentir de perto um Brasil que todos somos unânimes em querer ver transformado.

Ali, como em qualquer lugar, grande, médio ou pequeno, o que fez diferença foi o sentido. Para esses bravos voluntários que atuam no Projeto Níquel do Piauí, o destino daquelas crianças se faz por meio da educação e é a partir dela que poderão alcançar as oportunidades para desenvolver seus talentos próprios, indo além do destino que a vida parece lhes infligir, e mesmo sem saber exatamente, cumprem um princípio básico de nossa Constituição que diz que é dever do Estado, da família e da sociedade zelar pelo bem estar dessa parcela da população. 

Quando estive lá, era dia de paralisação na educação do município, mas para aquela escola o ônibus passou, os alunos foram lá e eu pude ver diante de mim um capital social brotando, uma vida que aguarda, assim como toda a vegetação da caatinga, um pouco de água e de solidariedade para brotar. Não é tamanho, não é tempo, não é conhecimento que faz com que sejamos solidários, mas sim o sentido, a compreensão, o entendimento de que algo é importante não só para mim, mas também para o outro, porque estamos unidos no princípio de humanidade.

Toda minha admiração a esses bravos cidadãos brasileiros que integram o Projeto Níquel do Piauí, aos educadores que acreditam nos seus alunos, aos gestores que lembram sua missão maior, e aos alunos que se permitem florescer na aridez do improvável.

domingo, 15 de agosto de 2010

A Rede Rádio Cipó do Pará

O frio paulistano que invadiu o sábado carioca não foi obstáculo para que o público se aquecesse com o excelente som que o Coletivo Rádio Cipó (http://www.myspace.com/coletivoradiocipo) realizou no espaço Oi Futuro de Ipanema. Para quem esperava o exotismo de um som que vêm da Amazônia, se deparou com uma linguagem contemporânea, com pitadas de uma cultura que ainda tem muito a mostrar. As participações de Oto e de Daniel Delatouche, com seu trompete mágico, fincaram ainda com mais força a bandeira da música de boa qualidade.

Com uma pegada de coletividade na veia, o Rádio Cipó é um espaço de produtividade que envolve vídeo, som, canto, sampler, mix, tradição, carimbó, guitarrada e a sua vertente de ação social que busca abrir uma janela de desenvolvimento dos talentos de uma juventude que ainda não encontra na cena local esse tipo de incentivo.

Em época que Paulo Henrique Ganso ajuda a resgatar a imagem de um estado já acostumado a se ver negativamente nos noticiários nacionais, dançar ao som do Coletivo Rádio Cipó em um dos locais mais quentes do Rio para se ouvir a boa safra da música nacional é um presente não somente aos conterrâneos que aportaram pelas bandas de cá, como a todos os que enfrentaram a chuva fina (ainda não viram o que é uma chuva de verdade!) e se deliciaram com a apresentação dos garotos e com a vivacidade de mestre Laurentino, que aos 85 anos ainda tem orgulho de ser um roqueiro nascido na misteriosa Ilha de Marajó, o que lhe garante com muita honra e merecimento o título de "presidente de honra" do Coletivo.

A pitada quente do carimbó regional e da sensualidade do norte ficou a cargo de ona Onete, diva da cena local que ganhou a cena nacional a partir do trabalho feito com essa moçada que tem muita estrada rodada e que chega somente agora com a sua "caravana holiday" very hot no cenário do Rio de Janeiro.

Agora é hora de hastear a bandeira ainda mais alto e seguir construindo essa estrada, que levará o Coletivo Rádio Cipó além dos oceanos. Comemoremos juntos: o Pará e a boa música!

Quem quiser saber mais, Aí está o caminho: http://www.coletivoradiocipo.org/spip.php?article=3

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Dalva, Herivelto e...Miriam

Segunda, dia 04, junto com o 2010 "valendo", começou o seriado "Dalva e Herivelto", escrito pela Maria Adelaide Amaral e dirigida pelo Denis Carvalho. Para os mais íntimos, não é segredo meu fascínio pela televisão e de que acompanho, na medida do possível e ao estilo do Rei Roberto, as novelas como um crítico que analisa performances, luz, direção, texto, e tudo o mais que estiver ali naquele pedaço de sonho que a TV acaba produzindo para sei lá quantos milhões de pessoas.

Acontece que ao ver "Dalva e Herivelto" fui tomado por um turbilhão de lembranças trazidas por vozes conhecidas e por bons momentos de infância e juventude. Me vi ali. Conheço os clássicos do rádio e da seresta (se podemos chamá-los assim) por intermédio de minha mãe, D. Miriam, de meu tio Célio (ouvia todo dia, às 6h, o Clube da Saudade, programa da Rádio Clube do Pará, que foi seu companheiro no momento do infarto fulminante que nos privou de sua especial companhia) e tia Marizita, aquela que guarda tantas memórias e histórias dentro de si, de seu sorriso e de seu orgulho de educadora que ainda hoje, aos 70 e tantos, leciona para as crianças do bairro onde mora.

Nelson Gonçalves, Vicente Celestino, Orlando Silva, Cauby Peixoto, Ataulfo Alves, Dalva de Oliveira, Herivelto Martins, Benvenido Granda, todos eles passaram pela sala de casa, que sempre se inundava com as belas vozes que embalavam letras e melodias que levavam os presentes a lugares tantos de um passado que naquele momento não era só dos mais velhos, mas de todos nós, incluindo eu, que guardo comigo aventuras da família de D. Paulina, minha tia-avó; e, a julgar pelo apelido de meus tios ("Espalha brasa", "Menino malhado" e "Rei dos vagabundos"), não eram poucas.

Vendo a minisérie da Globo e a produção apurada que a sustenta, conheço um período da história que me parecia familiar pelas memórias dos outros, mas nunca vivido. Aquele em que era nos bailes que as coisas aconteciam e para se conquistar uma bela moça ou distinto rapaz, era fundamental saber a arte de dançar, de passear pelo salão, de "escrever", como me disse minha mãe ao iniciar o caminho para que eu pudesse ser seu parceiro em bons e inesquecíveis boleros. Ainda hoje gosto muito de dançar, e danço até "ladainha bem cantada", mas confesso que um bom bolero ainda me deixa muito mais animado.

A histórica briga de Dalva de Oliveira e Herivelto Martins gerou um dos mais instigantes "duelos" da história musical brasileira, e nos coloca diante de um amor guiado por valores que não ficaram perdidos na distante década de 50 do século passado. Ainda hoje, quando iniciamos a segunda década do século XXI, infelizmente, encontramos situações semelhantes vividas por tantos contemporâneos nossos, com a diferença de não ser embalada pelas letras fortes que conduziam a poesia da dor daquele amor.

Ah! O amor...ele, sempre ele, presente em tantos episódios da vida humana e gerador de tantos movimentos positivos e negativos da humanidade.

"Dalva e Herivelto" já começou campeã quando resgata a história do Cassino da URCA, com o glamour daquele esplêndido corpo de baile e com todos em seus summers e blackties dando o tom da festa. E, não fosse isso suficiente, me proporcionou esse reencontro na sala de casa da minha memória, com D. Miriam, minha querida mãe, me contando cada história (ou seria estória mesmo?) lembrada pelas faixas da coleção de CDs de Dalva de Oliveira que lhe dei de presente há tantos anos passados.

Como disse Arnaldo Bloch em uma de suas deliciosas crônicas, existem momentos em que "a alma dança", e é isso que acontece comigo quando vejo "Dalva e Herivelto", minha alma dança pelos salões de minha memória vendo aquela TV e a narrativa de vidas de estrelas que, como nós, vivem e se permitem. Que seria da minha vida sem isso, sem a luz difusa do abajour lilás das boas lembranças e situações vividas? Sei não.

Toda minha gratidão a D. Miriam.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Meu bom e velho Noel

Fim de tarde no Arpoador. Foto: Edney Martins

Esta é uma carta que escrevi para participar do concurso de um blog bem legal, o RIOetc (http://rioetc.blogspot.com). Quem ganhasse na votação do público levaria um saco cheio de presentes, como o do Papai Noel. Fiquei em terceiro lugar e me diverti bastante escrevendo. Compartilho com os que não tiveram a oportunidade de ler e também de votar em mim. rsrsrsrs


Meu bom e velho Noel,


Tenho que confessar: não acreditava mais no senhor, e isso faz muito tempo, desde aquele trenzinho de ferro que encontrei na beira da minha cama e que me custou um pé furado quando pisei nele sem querer (ali percebi que o senhor sofria da mesma dificuldade que meu pai em guardar as coisas debaixo da cama, e o senhor deve lembrar de como eu era bom em ligar os pontos), mas o tempo passou, eu nem moro mais na mesma cidade, fico tirando uma de seu auxiliar aqui com os meus filhos, sempre pensando como é que vou contar a eles que o senhor não existe.


Até que, passeando por esse novo mundo digital, meio "blogueado" de tanta coisa para fazer, vim ver a atualização do RIO etc e descubro que o senhor terceirizou a sua entrega e no lugar de renas e trenó, estabeleceu uma parceria com essa moçada descolada e criou essa "dêagáele" natalina com essa cesta de presentes número família; sim, porque a diversidade dos itens, vamos combinar, hein Noel!? Isso faz com que o ganhador seja mais um ponto nessa holding de distribuição, porque nenhuma criatura pode ficar com tudo isso só para si...a não ser que não seja assim tão boazinha, mas isso cabe à sua avaliação e eu não quero usar meu espaço aqui para queimar o filme da concorrência, não é Noel?


Agora, mandar carta sem a garantia da privacidade, vou te contar, modernizaste, hein Noel? Digital, cibernético, trabalhando em rede e super colaborativo...impressionei. E impressionei tanto que pensei: acho que esse cara existe mesmo, e esse papo de roupa vermelha e CocaCola é isso aí(!), e quem garante que Noel não vai dar uma banda depois no Cabaré das Rosas enquanto a gente se entope de rabanada? Tá bem Noel, sorry! Essa parte não me diz respeito mesmo.


Vamos ao que interessa. Eu devo dizer que tentei, e consegui ser bonzinho nesse ano (qualquer declaração em contrário não deve ser considerada se não for provada em juízo, com julgamento em última instância, tá?), com isso alcanço o requisito principal do povo das antigas, não é Noel? Mas anexa aí que tenho sido bonzinho também nas postagens do twitter (falei um monte da Cop15 e até fiz campanha para o clima não esquentar, e percebo como isso é do seu interesse, já que a Lapônia sem neve deve ser meio uó), do Facebook (usei a rede para ajudar uma amiga argentina que tinha perdido um amigo israelense que tinha viajado da Bolívia para a fronteira do Peru com o Brasil. Que tal?) e o meu blog trata sempre de questões que podem (ou não, como diz aquele baiano que não deve acreditar muito no senhor, nem no Woody Allen) interessar para algumas pessoas que, como eu, acompanho blogs e a vida.


Ah! E sempre lhe tratei com o devido respeito, o que, vamos combinar, é artigo raro em um Brasil que segue envelhecendo sem saber tratar os seus idosos com dignidade.


Sendo assim, meu bom velhinho camarada, não vou tomar mais o teu tempo, que ainda tem muita cartinha para ler, e espero que o senhor escolha com isenção, mesmo sabendo que isso anda mais raro e caro do que trufa branca italiana, e sem corporativismo, claro, porque mesmo não tendo muita carta de menino aqui no blog, todos nós acreditamos no senhor e sabemos que vai dar o desconto para essa timidez que nos assola.

Daqui, meu abraço saudoso, cheio de alegria por saber que o senhor está bem, antenado e muito bem acompanhado por essa moçada do RIO etc, e, mesmo não ganhando esse saco de presentes para tirar uma onda de seu clone no Natal, valeu o encontro e esse dedinho de prosa.
Ah! E vê se não some, rapaz, que esse negócio de só aparecer no Natal, acaba dando nisso do povo te encher de pedido ao mesmo tempo.


By the way, se resolveres ter um ataque "vintage" e levar o trenzinho esse ano de novo, pode deixar em cima do sofá, tá? Por segurança...

Beijão,

Edney Martins

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Avesso

Hoje, 09 de dezembro, é o dia mundial de combate à corrupção, e acabo de ver as cenas dos policiais do Batalhão de Choque do Distrito Federal avançando sobre um grupo de manifestantes que estava em frente ao Palácio Jaburu (que nome adequado), sede do governo do DF, utilizado mais para solenidades e sem finalidade administrativa (talvez o excesso de vidro de Niemeyer não ajudasse a dinâmica da "reza" que tomou conta da cúpula daquele governo). A imagem me lembrou uma cena célebre da história do Brasil, mas os que estevam sentados no asfalto não tiveram a sorte de ter várias bolinhas de gude para dificultar a chegada da cavalaria (sim, isso mesmo, a cavalaria) que avançou contra eles.

Com spray de pimenta (o
must entre as forças de segurança), cassetete (clássico), bombas de gás (síndrome de Bin Laden), os policiais não livraram a cara de ninguém, nem da imprensa, que lá estava fazendo o seu papel. Agora o ministro da Controladoria Geral da União fala ao povo em horário gratuito e dizendo que faltam reformas mil no Brasil (política, eleitoral etc.) e que é comum um corrupto (alguém já viu um, de direito, de perto? Parece Uirapuru, com canto encanta e não aparece) não ser condenado a nada - a não ser ficar com cara de panetone (não mais de pastel, porque essa cara é a nossa diante dessa confusão toda).

Já escrevi aqui que não nos iludamos com essa situação do Distrito Federal. Por conta da ameaça que um secretário sofreu, soubemos de tudo isso, mas fosse o Arruda um homem inteligente (será?), nunca saberíamos de nada, e ainda corríamos o risco dessa criatura ser candidato a vice-presidente (vai vendo o tamanho da encrenca em que estamos metidos). Ou seja, é gigantesca a chance de termos uma imensa parcela de governos funcionando com base nessa mesma estrutura, e o que é pior, com poder para controlar os Batalhões de Choque para inibir manifestações contra si. A vontade que dá é instalar uma UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) é lá em Brasília mesmo, no plano piloto, limpando a cidade dessa situação toda, porque até agora, o que não vi se manifestando foi a estrutura do Judiciário. Não apareceu um magistrado para falar nada, e polícia que é bom para prender esse bando de vagabundo, só vi do lado dos bandidos.

Do lado do povo das togas, só a OAB, que mandou conselheiros como observadores da manifestação (quem conhece a OAB e os conselheiros com ternos bem cortados no meio de manifestantes, deve pensar que Papai Noel também existe), e esses alegam que nem tiveram tempo de fazer uma negociação. A polícia do DF entrou e baixou o cacete mesmo, sem papo furado, e o coronel Luiz Fonseca (anotei o nome), comandante da PM de pindorama, disse que estava garantindo o direito de ir e vir do cidadão brasiliense. E o direito de ter um governo que preste? E o direito de ter o valor de seus impostos investidos na melhoria de vida de sua população e não em cavalos?

Hoje é o dia de combate à corrupção, e o vice-prefeito de Manaus acaba de ser preso, mas isso já virou notícia comum, tão comum como a de que um juiz do TRE do Pará concedeu liminar para que o prefeito de Belém, Duciomar Costa, fosse mantido no cargo à revelia do fato de que usou o dinheiro da máquina administrativa para se reeleger. Arruda acaba de entrar com uma ação para barrar qualquer ação do seu partido, o DEM, contra ele, sinal de que quer garantir legenda para tentar a reeleição também. Se Duciomar pode, porque ele não? Quem sabe descola um magistrado muuuuuito isento que lhe garanta esse direito, não é mesmo?

Hoje, dia de combate à corrupção, vejo tudo do avesso, vejo safado chamado de doutor ou excelência, e trabalhador levando cacetada de outro peão cumpridor de ordens, agindo "sob o estrito cumprimento do dever" e arrotando direitos com bafo de mofo do "calaboca" que colocou no bolso. Hoje, dia em que deveríamos gritar e pedir que isso acabe, vejo que o caminho é longo, e que andamos muito pouco desde a cavalaria de 1968 e a de agora; a democracia, este bebê que insiste em seguir, parece um menino Mogli perdido na selva depois do naufrágio do navio dos princípios, enquanto 04 irmãos são enterrados depois de morrerem soterrados por conta da chuva que caiu em São Paulo.

Há muito o que seguir, há muito o que construir, há muito o que viver, há muito o que fazer, e no avesso disso tudo, desligo a tv depois do "boa noite do Bonner" e torço para que amanhã as notícias sejam melhores e que cheguemos "ao avesso, do avesso, do avesso".

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

"Gente é para brilhar!"

"Assim como um homem ou uma mulher se converte em pessoa de caráter à medida que conseguem responder proativamente aos desafios que a vida lhes oferece, uma sociedade se torna coesa e se projeta quando é capaz de entender quais são os desafios que deve superar coletivamente" (Bernardo Toro)

O título deste post traz uma parte de uma famosa música de Caetano, e utilizo para expressar de maneira direta o que senti ao ler textos de alguns especialistas em RH que trazem à tona uma coisa que deveria ser simples, mas, talvez pela sofisticação que a simplicidade verdadeira sempre traz em si, não é comum de ser vista no mundo das corporações em geral: as organizações são feitas de pessoas, e são elas o seu maior patrimônio.

Toda pessoa jurídica é, de fato - e mesmo de direito, porque sempre precisa de um preposto para lhe representar - feito por pessoas físicas, e são elas que decretam o sucesso ou o fracasso de uma instituição. O trecho do texto do educador colombiano Bernardo Toro, que coloco acima, destaca isso e reforça que é a partir delas, as pessoas, que construímos uma comunidade de sentido que conseguimos chamar de país. Putnam, fazendo o caminho inverso de Tocqueville - que havia estudado a América - se debruçou sobre a Itália e constatou que existia nas cidades do norte daquele país - mais desenvolvidas e estruturadas do que as do sul - um forte sentimento de solidariedade e confiança, que ele denominou de "capital social". As pessoas resolviam eventuais conflitos de forma pacífica e amigável, e a confiança de ambas as partes no cumprimento do estabelecido era a principal garantia não somente da resolução de um problema pontual, mas da construção de uma sociedade calcada em princípios sólidos de caráter.

Quando vejo a coqueluche que o tema da sustentabilidade se transformou, percebo que ainda há um descompasso entre o que se fala e escreve e o que de fato se faz, e, mesmo com os avanços evidentes que encontramos, a percepção sobre o capital humano ainda deixa a desejar.

Recentemente estive à frente da área de comunicação em uma organização, e vi os efeitos positivos que olhar o público interno como principal stakeholder causou, assim como pude constatar que a promoção do voluntariado dentro de corporações proporcionou um nível de relação entre áreas de uma empresa que dinamizou bastante o processo de trabalho. A sensação de pertencimento gera um envolvimento maior com as questões do coletivo.

Somos todos seres humanos, somos mola propulsora de uma sociedade que se formou a partir do olhar para nós mesmos, e nos tornamos sociedade quando passamos a considerar o outro como um elemento com o qual nos relacionamos, com o qual acreditamos que podemos trocar, e essa troca se dá quando nos dispomos a ouvir o outro, seja ele par ou não no mundo corporativo, porque, antes de tudo, goza da condição de humano, e isso já nos faz pares no viver. Considerar isso é pensar em sustentabilidade. Perceber que uma média gerência insatisfeita pode inviabilizar os mais arrojados planos de inovação, que o chamado "chão de fábrica" (acho horrível essa denominação) tem muito a nos contar sobre fluxos mais eficazes de negócio, é pensar e considerar uma instituição como o ser orgânico que de fato é.

Tratando das relações que vão além de seus muros, que se estendem às casas de seus colaboradores, às escolas de seus filhos, aos clubes que frequentam, aos lugares em que celebram o seu espírito, compartilhando de suas vidas, os entes corporativos pavimentam uma trilha sustentável de vida, possibilitando a construção de caminhos alternativos nos momentos difíceis, assim como os de celebração nas vitórias alcançadas no decorrer do processo, mas isso, caros amigos, se faz com liderança exercida com responsabilidade, com equilíbrio e sem auto-suficiência, e aí está um dos grandes desafios.

A necessidade de construção de um mundo sustentável não é mais "moda passageira de gestão", é mais do que realidade com a ocorrência de graves problemas climáticos, e se essa transformação se dá a partir dos países e das corporações, detentoras da maior parte da renda mundial, é nas pessoas e na figura individual de cada um de nós que ela nasce e se fortalece.

O mundo é uma rede, e nós somos um ponto na trama que a compõe. Quanto mais pontos conscientes tivermos, a rede mais forte será, e o nosso amanhã há de ser feliz depois de um sono tranquilo. Vamos a ele!