quarta-feira, 11 de novembro de 2009

COOPERIFA - A força que vem da periferia

Esta semana devorei um livro lançado pela Editora Aeroplano, da Heloisa Buarque de Holanda. "COOPERIFA - Antropofagia Periférica" conta a história do nascimento desse espaço poético - literalmente - criado no meio da periferia de São Paulo, muito além das pontes do Socorro e João Dias, do lado de lá do rio, onde os do lado de cá mal sabem como chegar ou como agir.

No bar do Zé Batidão, Sérgio Vaz e sua legião de guerreiros e guerreiras construíram uma das cenas culturais mais improváveis da grande metrópole da américa latina. Sampa ferve de dia e de noite, não pára mesmo, mas é um mosaico formado por vários pedaços, de tal maneira que não é difícil encontrarmos pessoas que nasceram na cidade, cresceram em seus bairros e não conhecem quase nada além do seu entorno e, vez por outra, do Centro, também chamado de "cidade". Se dizem que os botecos são um foco de problemas nas periferias, é também dentro deles que acontece a socialização de parcela mais do que significante de nossas comunidades, e foi a partir dele e dentro dele que nasceu a COOPERIFA, inicialmente em Taboão da Serra, no Garajão, e já há muito tempo no Zé Batidão.

Você consegue imaginar uma média de 200 pessoas se reunindo às 20h de todas as quartas-feiras, faça chuva ou calor, para...falar poesia? Então imagine, porque é isso que acontece no bar do Zé Batidão, e eu, depois que terminei de ler o livro, fiquei empolgadíssimo para ver isso ao vivo. Contrariando todas as previsões, é a palavra a principal arma lá utilizada, e foi ela que fez com que muitos descobrissem o talento que tanto o sistema desigual insiste em esconder e não desenvolver. Quem foi que decretou que poesia só é construída nos salões nobres? Quem disse que só pessoas tidas como "preparadas" podem se aventurar na bela junção de palavras, vida e sentimento? Quem determinou que esses homens, mulheres e jovens não têm o que nos contar? Pois não dando bola para isso, de peito aberto e criatividade ímpar, os membros da COOPERIFA foram para cima e são eles que ocupam essa fita e montaram essa trincheira poética.

Ler sua história já é poesia, ver o seu crescimento é pura emoção, representada no lançamento de balões que, cheios de gás e poesia construída por seus frequentadores, se lançaram na noite e foram pousar em quintais e corações alheios a tanta coisa. Vale a leitura deste livro para ver como há muito o que fazer e o quanto já está sendo feito. Vale também a leitura de livros já lançados de seus membros, como Sérgio Vaz, Dinha, Sacolinha, Alan Rosa e tantos outros, disponíveis na coleção "Literatura Periférica", da Global Editora (Luiz Alves sempre atento ao que há de melhor nesse país. Parabéns!), vale um momento de cada um de nós para a poesia da vida, tão presente nas palavras dos bravos integrantes desse movimento.

É isso! São eles os caras de verdade, os que sabem que "a arte que liberta não vem da mão que escraviza", por isso tomam a frente, cerram as mãos para escrever seus poemas e seguem com o seu lema: "Por uma periferia que nos une pelo amor, pela cor e pela dor". Todos temos muito o que aprender com eles e com o que existe em torno dos grandes centros, celeiros de talentos, de beleza, de poesia e de escritores que têm muito o que nos contar.

2 comentários:

  1. É isso aí, muito legal este bar do Zé Batidão! Isso rende uma super matéria hein?

    Um beijo!!
    Manu

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  2. Pois é, Manu! Quem sabe conseguimos fazer algo semelhante pelas bandas de cá, não é? Bjs

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